Governança deve equilibrar solidez e agilidade, diz Daniel Stieler

Executivo da Vale, patrocinadora do 26º Congresso IBGC, aponta caminhos para conselhos em um mundo disruptivo

  • 17/09/2025
  • Daniel Stieler
  • Bate-papo

Em um ambiente de transformações aceleradas, marcado por avanços tecnológicos, novos riscos socioambientais e expectativas crescentes de stakeholders, os conselhos de administração precisam equilibrar solidez institucional e agilidade estratégica. Para discutir os caminhos da governança corporativa diante desse cenário, o Blog IBGC conversou com Daniel Stieler, presidente do conselho de administração da Vale.

BLOG IBGC: Quais são os três principais caminhos para a governança corporativa apoiar empresas em um mundo de rápidas transformações?

Daniel Stieler: Para que a governança corporativa cumpra sua função de garantir a perenidade dos negócios com responsabilidade e legitimidade em um mundo marcado por transformações aceleradas, os três caminhos que eu destacaria são:

1. Estrutura de governança adequada e sólida: assegura a qualidade e a robustez do processo decisório da companhia, promovendo debates e perspectivas complementares e aliando segurança ao dinamismo do cenário atual. Para isso, é fundamental que a empresa tenha um conselho de administração experiente e comitês de assessoramento bem estruturados, com diversidade de perfis, pensamento crítico, visão estratégica e engajados com o propósito e a estratégia da administração. Para garantir uma governança robusta, é essencial que seus conselheiros e executivos trabalhem de forma harmônica e ao mesmo tempo independente, respaldados por um feixe de políticas corporativas aderentes às melhores práticas de governança corporativa.

2. Comunicação transparente, diálogo constante e com proximidade: a governança precisa ser baseada na confiança e isso se constrói com transparência e proximidade, além de uma escuta ativa e relacionamento constante e sincero com todos os públicos — investidores, colaboradores, clientes, comunidades, reguladores, fornecedores, parceiros estratégicos e poder concedente. Canais de diálogo permanentes, prestações de contas claras e transparentes e presença ativa em espaços de debate tornam a empresa mais conectada com as expectativas externas, o que é crucial para a legitimidade e, consequentemente, a boa reputação da empresa e todo o ecossistema onde ela atua.

3. Gestão adequada de riscos, disciplina na gestão de capital e resiliência em qualquer cenário: em contextos de disrupção, o papel da governança não é evitar riscos a qualquer custo, mas identificá-los, monitorá-los e transformá-los em oportunidades. Isso inclui riscos ambientais, sociais, tecnológicos e reputacionais.

O que a torna eficaz?

Um sistema de governança eficaz antecipa tendências e prepara a organização para responder com responsabilidade e inovação, sempre pautada pelo princípio da integridade. Os conselhos, além de montar um time de executivos de classe mundial, precisam priorizar uma agenda recorrente com as equipes de riscos e finanças, no intuito de identificar as melhores oportunidades de alocação do capital, considerando o apetite a riscos e expectativas de retornos no longo prazo a todos stakeholders.

A Vale atua com diligência nesses três pilares, consolidando um modelo de governança alinhado com as melhores práticas globais. Em julho a empresa alcançou, pelo segundo ano consecutivo, 100% de aderência às práticas recomendadas pelo Código Brasileiro de Governança Corporativa. Nos dedicamos intensamente para apresentar o mais alto nível de adesão a princípios, fundamentos e práticas de governança recomendados a companhias abertas. Entre os destaques da governança da Vale estão: conselho de administração composto por membros com experiências e perfis complementares ancorados por uma matriz de competências revisada constantemente; eleição individual, a partir de um processo de indicação conduzido por empresa independente e de reconhecimento internacional, dos conselheiros em Assembleia Geral, diretamente pelos acionistas; presidente e vice do conselho também eleitos pelos acionistas, em Assembleia; formado por maioria independente, atualmente 62% do conselho de administração é composto por membros independentes; critérios próprios e adicionais de independência de conselheiros e de overboarding.

Quais mecanismos de governança você considera mais eficazes para garantir transparência e diálogo com stakeholders?

É essencial combinar estruturas de governança robustas com processos claros e mecanismos que incentivem a escuta ativa e o engajamento contínuo. A governança deixa de ser apenas um conjunto de normas para se tornar um sistema vivo, que conecta a empresa aos interesses legítimos de seus públicos de forma ética, consistente e estratégica.

Na Vale, a atuação do conselho de administração está pautada em temas estratégicos e em estabelecer uma comunicação mais próxima aos stakeholders relevantes, internos e externos. Entre as práticas que adotamos estão: o reforço da integração com o comitê executivo; a presença nas comunidades e operações da companhia; a proximidade com investidores, clientes e parceiros estratégicos; e o diálogo com o poder concedente e órgãos internacionais.

Outro aspecto que gostaria de destacar é a utilização de frameworks globais, como os emitidos pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), além de GRI, SASB e TCFD. Isso eleva significativamente a qualidade e a confiabilidade das informações divulgadas e promove consistência, comparabilidade e relevância, permitindo que stakeholders compreendam com clareza os riscos, oportunidades e impactos da empresa. Ao alinhar suas práticas de reporte a essas referências, a companhia reforça seu compromisso com a transparência e fortalece sua reputação perante investidores, reguladores e sociedade.

Por fim, mais do que informar, é essencial ouvir. Mecanismos como ouvidorias independentes e fóruns de consulta criam espaços legítimos de escuta ativa. Quando integrados à governança, esses canais permitem que as expectativas dos públicos de interesse sejam consideradas nas decisões estratégicas, promovendo confiança mútua e legitimidade para uma geração de valor de forma sustentável.

De que forma a cultura organizacional pode, na prática, fortalecer valores éticos e melhorar a efetividade da governança?

A cultura organizacional é a base sobre a qual se sustenta a governança corporativa efetiva. Na prática, ela funciona como um sistema vivo de valores, crenças e comportamentos que orientam as decisões e ações em todos os níveis da empresa. Quando essa cultura é estrategicamente construída a partir de valores éticos sólidos e alinhada aos princípios da boa governança (como transparência, accountability, equidade e sustentabilidade), ela fortalece a integridade da organização de forma transversal criando valor e diferencial competitivo pelos aprendizados ao longo da sua história. Temos uma responsabilidade imensa de deixar um legado ainda maior do que o recebido daqueles que sucedemos.

A transformação cultural, nesse sentido, é consequência de um processo social evolutivo contínuo e consciente, ancorado no exemplo da liderança. Líderes que agem com coerência entre discurso e prática, que tomam decisões coerentes com os valores da companhia e que promovem um ambiente de escuta e inclusão atuam como catalisadores dessa mudança. Eles mostram, na prática, que ética e performance caminham juntas.

Outro ponto essencial é a comunicação clara e consistente dos princípios, valores e do propósito da organização. Isso deve ser feito de forma acessível, por meio de múltiplos canais, reforçando constantemente o porquê das ações e decisões. Assim, cria-se um ambiente no qual os colaboradores não apenas conhecem os valores corporativos, mas ajudam a construí-los e se sentem responsáveis por vivê-los. Em suma, cultura e governança não são caminhos paralelos: são interdependentes.

Como a ideia de “governança em um mundo disruptivo”, tema do Congresso IBGC deste ano, se traduz, na prática, para os conselhos e lideranças empresariais hoje?

O conselho de administração, juntamente com o comitê executivo, tem entre suas atribuições orientar o direcionamento estratégico da companhia, considerando desafios como adaptação de estruturas e processos de tomada de decisão em um ambiente de permanente transformação, impulsionado pela tecnologia, que avança a passos largos, questões geopolíticas e socioambientais. Um mundo cada vez mais disruptivo demanda uma governança ágil, flexível e proativa, que seja capaz de evoluir de um modelo apenas normativo para um modelo estratégico e adaptativo, se consolidando como pilar para o crescimento sustentável das empresas. É fundamental que o conselho de administração e a diretoria identifiquem, desenvolvam e aprimorem constantemente as vocações e as vantagens competitivas da companhia com parceiros estratégicos altamente confiáveis, em vários cenários. Isso aumenta significativamente o valor da empresa de forma contínua e sustentável.

Na prática, isso significa conselhos mais diversos, com competências em temas emergentes como inovação, ESG, cibersegurança e cultura digital. Também implica uma atuação mais próxima da gestão, com capacidade de questionar, orientar e antecipar riscos e oportunidades de forma ágil, sem abrir mão dos princípios da boa governança. Lideranças, por sua vez, precisam estar preparadas para tomar decisões em contextos de incerteza, mantendo coerência com o propósito e os valores da organização. Governança, nesse cenário, não é um freio à inovação, mas um guia ético e estratégico que ajuda a empresa a inovar com responsabilidade, gerando valor sustentável no longo prazo. Em essência, a governança em um mundo disruptivo é aquela que combina solidez institucional com flexibilidade estratégica, reconhecendo que o futuro das companhias e sua geração de valor serão cada vez mais definidos pela qualidade e tempestividade de suas decisões hoje.

*Este texto foi produzido pela Vale, patrocinadora do 26° Congresso IBGC. Seu conteúdo é de responsabilidade dos autores e não reflete, necessariamente, a opinião do IBGC. 

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